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R$50. Cartão de visita. Nenhum plano B.

agosto 5. 2026

Por Saulo Camelo

Tem um cheiro específico em gráfica rápida. Tinta fresca, papel couchê, calor de impressora. É o cheiro de quem está começando do zero e não tem a menor ideia do que vem pela frente, mas decidiu vir assim mesmo.

Eu tinha 21 anos, a rescisão de um emprego que acabei de deixar no bolso e uma conta bancária que somava exatamente R$ 50. Não era pouco dinheiro. Era TUDO que eu tinha.

Com esse valor, mandei fazer cartões de visita. Duzentos. Trezentos. Não lembro o número exato, mas lembro do peso daquela pilha na mão. Lembro de pensar que cada cartão era uma chance. Que bastava uma chance. Que eu não ia desperdiçar nenhuma.

Eu tinha meu plano A, assim como Kurt. No filme baseado em fatos, American Underdog (2021), um quarterback chamado Kurt Warner estava empacotando prateleiras em um supermercado de Iowa enquanto esperava alguém da NFL devolver uma ligação. Ele tinha sido cortado duas vezes. Jogou na Arena Football League, que é mais ou menos o equivalente a jogar na quarta divisão quando o que você quer é jogar no Super Bowl. Quatro anos após empacotar carne e leite, ele foi o MVP e liderou o time o Los Angeles Rams a ser campeão do Super Bowl no ano de 2001.

Não conto isso como metáfora motivacional. Conto porque a estrutura é a mesma: o que separa “quem começa” de “quem começa e não para” não é talento, não é timing, não é rede de contato. É a ausência de plano B.

Warner não tinha para onde ir senão jogar. Eu não tinha para onde ir senão vender. 

Eu era o azarão americano também.

O problema do plano B não é que ele te conforta. É que ele te divide.

Quando você mantém uma saída de emergência aberta, parte da sua energia vai para preservar essa saída. Você trabalha com 80% porque os outros 20% estão sempre calculando o risco de falhar. Isso é completamente racional. E completamente paralisante.

Quem não tem plano B não é corajoso. É focado, quase que insano. A equação fica simples: ou isso funciona, ou passo perrengue. E quando a alternativa é passar perrengue, você descobre que tem uma criatividade e uma resiliência que você não sabia que existiam.

Passei 12, às vezes 16 horas por dia na rua com aqueles cartões. Eventos, escritórios, comércios, lobbies de prédio. Porta a porta quando não tinha outro jeito. Os primeiros clientes chegaram, mas os números não fechavam, R$ 200, R$ 300 por mês, lembro até hoje vendi dois folders por R$ 80 para uma academia, foi o meu primeiro cliente. Isso na época era o suficiente para saber que estava funcionando, insuficiente para saber por quanto tempo ainda aguentaria, tanto é que comecei com um sócio e ele saiu, como poderia culpar ele? Não estava funcionando. Não estava dando certo como imaginei e sonhei.

Mas tinha uma coisa que eu sabia com clareza cirúrgica: CLT estava fora de cogitação pra mim. Não por orgulho, não por princípio ideológico. Por aritmética. Onde eu queria chegar, o caminho empregado não chegava. Então, o único caminho que existia era esse, por mais que não estivesse dando certo AINDA.

Essa distinção importa: não estava dando certo ainda é diferente de não está dando certo.

Tem uma cena no livro Outliers, do Malcolm Gladwell, em que ele disseca por que os Beatles (a melhor banda da história – quem ousa discordar está errado rs.) ficaram tão bons antes de ficarem famosos. A resposta são as horas em Hamburgo anos antes de lançarem o primeiro álbum em 1963, tocando oito horas por dia em clubes baratos para público bêbado, anos antes de qualquer sucesso. A fama não criou a habilidade. A habilidade, construída em condições ruins, criou a fama.

Eu não sabia disso na época. Mas estava fazendo exatamente aquilo: horas em condições ruins, desenvolvendo uma habilidade que eu ainda não conseguia vender, para um mercado que ainda não me conhecia.

Os R$ 50 e o maço de cartões não foram o começo de uma história de sucesso. Foram o começo de um processo de formação. A diferença entre as duas leituras é o que define se alguém aguenta os anos do meio, que são os mais difíceis, os mais silenciosos, os que mais pedem para que você abra aquela saída de emergência.

Tem uma frase que virou o DNA do que construí depois, que vai aparecer de novo sempre que for importante, em outro artigo, em outro contexto, mas que começou exatamente naquele momento com os cartões na mão:

Não existe tentar.

Eu não estava tentando abrir uma agência. Eu estava abrindo uma agência. A distinção não é semântica. É estrutural. Tentar preserva a opção de não conseguir. Fazer não preserva essa opção. Quando você elimina o verbo tentar do seu vocabulário operacional, o que sobra é um compromisso que não tem saída honrosa senão ser cumprido.

Aqueles duzentos, trezentos cartões se foram em semanas. Eu pedi mais. E fui entregar mais.

Não tinha escritório. Não tinha sócio. Não tinha investidor, mentor, indicação, conteúdo no Youtube como fazer empresa milionária… Tinha o serviço que poderia entregar e que de fato entreguei. E a disposição de conseguir o próximo cliente e entregar ao próximo, sempre dando o meu melhor e com a máxima excelência – excelência essa que se tornou um valor da agência CMLO. hoje.

Isso é o que eu diria para qualquer pessoa que está no começo agora, não que vai ficar fácil, não que o mercado vai reconhecer você na hora certa, não que o esforço vai ser recompensado no prazo que você imagina. Para ser sincero, se eu soubesse que fosse tão difícil provavelmente eu nem começava.

Diria que a ausência de plano B não é uma irresponsabilidade. É, às vezes, a única forma de se comprometer de verdade com o que você escolheu.

E que cheiro de gráfica rápida, tinta fresca, papel couchê, calor de impressora, sola de sapato, espera e rua para mim, é o cheiro de quem decidiu que ia mudar as coisas.

_____

Este é o primeiro artigo de uma série sobre o que aprendi construindo o grupo CMLO&CO do ZERO. Na próxima, falo sobre o que acontece quando você é o designer, o financeiro, o vendedor e o estagiário da própria empresa ao mesmo tempo.

  • Saulo Camelo

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