Por Saulo Camelo
Tem um conceito em biologia chamado de autofagia. É quando uma célula, em situação de estresse, começa a digerir suas próprias estruturas para se manter viva. É um mecanismo de sobrevivência. Funciona. Mas se durar tempo demais, a célula morre do remédio.
Eu vivia em autofagia empresarial e não sabia.
Quando a CMLO. ainda era menor do que o nome que ela carregava, eu encontrei um conceito que descrevia o que estava vivendo: EUGÊNCIA. Uma agência de uma só pessoa. Você conhece isso. Não pelo nome, mas pelo sintoma.
É a sensação de ter oito tarefas abertas ao mesmo tempo e a consciência constante de que todas dependem de você para avançar. A imagem que me vem é a de um polvo: oito braços, oito funções, um cérebro tentando coordenar tudo em tempo real. No aquário, parece elegante. Na prática, quando você é o polvo, você sabe que está improvisando a maioria dos braços.
Numa semana qualquer da minha EUGÊNCIA, eu era:
→ O diretor de criação que aprovava o próprio trabalho, e não tinha como saber se estava aprovando porque era bom ou porque estava cansado.
→ O comercial que vendia sem tabela de preço definida, cada negociação era uma aposta no que o cliente aguentaria pagar, compensando ou não para mim.
→ O financeiro que confundia gasto pessoal com gasto da empresa (durante mais tempo do que eu gostaria de admitir).
→ O atendimento que prometia prazo sem consultar a produção, porque a produção, claro, também era eu.
→ O estagiário que fazia o que sobrava, que era quase tudo: ir ao banco, passar na gráfica, cuidar do correio, etc.
Não havia incompetência, por assim dizer. Era a lógica natural de quem começa sem estrutura e sem dinheiro: ir resolvendo conforme o desafio aparece. O problema é que “conforme aparece” vira o método. E método nenhum escala assim.
Tem um livro do Cal Newport chamado Deep Work (Trabalho Focado), em que ele argumenta que o trabalho mais valioso, movendo carreiras e empresas de verdade, exige períodos longos de concentração ininterrupta. Nenhuma notificação, nenhuma troca de contexto, nenhum braço extra puxando você para outro lado.
A EUGÊNCIA é o oposto estrutural disso.
Quando você é tudo, você nunca está em nenhuma coisa de verdade. Você resolve. Você reage. Até apaga o incêndio. Mas construir, planejar, pensar com profundidade? Isso fica para quando sobrar tempo. E na EUGÊNCIA nunca sobra tempo.
O paradoxo é que essa fase ensina muita coisa que nenhum curso ensina. Você aprende a tomar decisão rápido porque não tem reunião de alinhamento para esperar. Você aprende onde o dinheiro some porque você mesmo o vê entrar e sair. Você aprende o que o cliente quer de verdade porque não tem intermediário fazendo meio campo. Você aprende o que é urgente de verdade porque, quando tudo parece urgente, você é obrigado a hierarquizar.
É uma escola brutal. E é uma escola real. Que não se ensina na faculdade.
O problema não é passar por ela. O problema é não sair dela.
A EUGÊNCIA tem um teto. Ele é baixo, e você bate a cabeça nele num momento específico, diferente para cada um, mas ele está lá. Acredite.
Para mim, o ponto de virada foi quando percebi que estava acumulando projetos que não conseguia entregar. Não por falta de qualidade, mas por falta de braços. Cada “não” deixaria de ser receita entrando, cliente ficando, crescimento acontecendo. Expandir deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade. A primeira contratação não foi uma decisão financeira. Foi a forma que encontrei de continuar crescendo.
Até aquele momento, eu estava operando. A partir dali, eu estava gerindo. A diferença entre os dois não aparece no extrato bancário no mês seguinte. Aparece no que a empresa consegue fazer quando você não está olhando.
Isso é construção. E construção começa quando você para de ser todos os braços e começa a distribuí-los. O polvo precisou ser engolido pelo gestor. E até hoje eu me lembro como é o sabor de começar a crescer.
Este é o segundo artigo de uma série sobre o que aprendi construindo o grupo CMLO&CO do ZERO. No próximo, falo sobre o que aconteceu quando a pandemia chegou e por que, enquanto o mercado se contraía, a gente foi para o outro lado.
- Saulo Camelo